Símbolo da Beija-Flor, Neguinho grava sambas para escolas concorrentes

Processo que toma conta das agremiações cariocas entre os meses de julho e outubro, a disputa pela condição de ter o samba-enredo escolhido para defender a escola na avenida se torna, a cada ano, mais acirrada e custosa para os compositores.

Sua voz é um dos símbolos do carnaval carioca. O dono, um dos raros intérpretes de escola de samba que nunca trocaram de camisa. Há 40 anos, Neguinho da Beija-Flor conduz, com seu canto potente e grave, a escola de Nilópolis, 13 vezes campeã. Porém, nesta temporada pré-carnavalesca, o sorridente cantor proporcionou uma das mais bombásticas novidades.

Na fase de disputa de samba dentro das agremiações, em que os compositores contratam intérpretes de outras escolas para defender suas obras, Neguinho gravou sambas para a Mocidade Independente de Padre Miguel e União da Ilha do Governador e já se prepara para colocar a voz em um hino da Acadêmicos do Grande Rio. “Todo mundo grava os sambas da Beija-Flor. Agora, estou fazendo isso para que o pessoal das outras escolas saiba como é ouvir a voz do Neguinho em seus sambas”, justifica.
Processo que toma conta das agremiações cariocas entre os meses de julho e outubro, a disputa pela condição de ter o samba-enredo escolhido para defender a escola na avenida se torna, a cada ano, mais acirrada e custosa para os compositores. Em eliminatórias semanais, os sambas são apresentados nas quadras até que sobrem de duas a quatro composições, que farão as finais.

A cada etapa, os autores lançam mão de vários artifícios para conquistar a preferência da diretoria e dos componentes das escolas: torcidas ensaiadas, bandeiras, balões, distribuições de CDs e camisetas e, principalmente, a participação de intérpretes consagrados para “defender” seus sambas nas quadras. Nesta época do ano, os grandes cantores do carnaval carioca rodam as quadras das concorrentes mediante um bom pagamento  – estima-se que o cachê varia entre R$ 1.000 a R$ 3.000 por noite.

Conhecido por sua longa fidelidade à Beija-Flor, Neguinho nunca havia entrado nesse mercado. E o que teria motivado essa mudança de postura? Segundo o cantor, é uma medida de protesto, já que essa prática confunde o grande público. “Hoje em dia os sambas são divulgados largamente pela internet e, depois que são escolhidos, os camelôs já montam coletâneas e os vendem. Até gravarmos o CD oficial, o público fica com a versão de trabalho. Já perdi a conta das vezes que me perguntaram se eu saí da Beija-Flor. É uma situação chata”, explica o cantor.

Neguinho teve a verdadeira noção do fenômeno em fevereiro, logo após a apuração que deu o título para a Beija-Flor de Nilópolis: “Fizemos um desfile em carro aberto pela cidade. Em todos os lugares, só tocava o samba na voz do Nego (intérprete da Imperatriz Leopoldinense, irmão de Neguinho e que havia cantado o samba na fase de disputa na quadra). Fiquei chateado”, lembra. A partir desse momento, o cantor tomou a decisão de pedir à diretoria da azul e branca que não permitisse que os intérpretes de outras escolas gravassem os sambas concorrentes:
“Falei com eles que não tenho nada contra que eles cantem na quadra. Acho justo todo mundo ganhar seu dinheiro. Mas, cantando no CD, causa confusão no público. Poderiam colocar os intérpretes de apoio da escola, uma gente nova, que merece seu destaque. Mas, infelizmente, não fui atendido”.

Apesar de defender que os intérpretes de outras escolas cantem nas quadras, Neguinho afirma que não fará o mesmo. “É só no disco, na quadra não vai ter, não”, disse, em meio a risadas. E sequer abriu qualquer outro tipo de concessão. “Me pediram para vestir a camisa da Mocidade no estúdio para gravarmos um clipe. Eu me recusei. Eu sou igual ao Pelé, ao Zico, ao Roberto Dinamite. Eu só visto uma camisa, a da Beija-Flor”, afirma.

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