Vale da Pirambeira é alvo de nova investigação ambiental

Local apresenta mau cheiro, água turva, grande camada de espuma sob a superfície e nenhum indício de vida aquática

Cursos hídricos com suspeita de poluição fazem parte da bacia hidrográfica do Rio das Cinzas CRÉDITO: Explorando o Norte Pioneiro

O Vale da Pirambeira, estuário ecológico de rara beleza, localizado à margem da PR-092, no perímetro urbano de Joaquim Távora está sendo alvo de nova investigação que apura suposta contaminação ambiental, cuja origem ainda é uma incógnita. Fiscais do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e da Polícia Ambiental coletaram, há poucos dias, amostras de água para análise. O local vem sendo, ano a ano, duramente castigado pela suposta emissão de poluentes no Rio Peroba, que corta o perímetro urbano e vários bairros rurais.

Desde 2014, ativistas lutam pela preservação do manancial e denunciam o lançamento de efluentes industriais e outros agentes poluentes sem tratamento adequado que estariam prejudicando a fauna e a flora não só do Vale, mas como do Norte Pioneiro. Afinal, as águas vindas do Vale da Pirambeira, deságuam no Rio das Cinzas, que serve de abastecimento para várias cidades da região.

Nesta semana a Polícia Ambiental e técnicos do IAP estiveram no Vale atendendo a denúncias de crime contra o meio ambiente, e constataram que no local há sinais evidentes de poluição. Diante disso, solicitaram junto ao laboratório do Instituto uma nova análise da água para que o laudo aponte se há poluição no curso hídrico.

De acordo com o Boletim de Ocorrência registrado na 35ª Delegacia Regional de Polícia de Joaquim Távora, foi verificada a presença de um substrato de coloração escura, que sobressai no leito fluvial com uma espuma branca e de odor fétido. Porém, o comandante do 4º Pelotão de Polícia Ambiental de Jacarezinho, subtenente Cláudio Henrique Cavazzani, destaca que somente um laudo técnico emitido por laboratório credenciado poderá comprovar se tais características citadas são poluentes ou não.

O relatório ainda destaca que em outro ponto de análise feita pela equipe, a água apresenta as mesmas características do primeiro local fiscalizado.

Vale ressaltar que todos estes cursos hídricos fazem parte da bacia hidrográfica do Rio Cinza – que se trata de um potente manancial de abastecimento de vários municípios da região.

O advogado André Tressoldi, que luta desde 2014 pela preservação do Vale da Pirambeira, comenta que já foi protocolada uma denúncia no Ministério Público Estadual (MPE), em Joaquim Távora – que deu parecer contrário – e foi necessário recorrer à segunda instância, processo que ainda tramita sem desfecho conclusivo. Segundo ele, é visível a emissão de poluentes do local, porque quem visita o Vale pode observar que a coloração da água é turva, em tom esverdeado, além disso, apresenta uma densa espuma branca com mau cheiro e não há indícios de vida aquática no local.

Pra piorar a situação, as águas do Vale da Pirambeira, antes de chegar ao Rio das Cinzas, deságuam no Rio Barra Grande, que passa pelas proximidades da aldeia indígena Pinhalzinho, em Guapirama, e pode estar afetando diretamente os índios. “Em 2017 fiz uma análise da água por conta própria, enviei uma amostra para um laboratório e se constatou mais de 600% de alteração no limite de poluentes. É triste ver que a natureza está sendo prejudicada; plantas, animais que utilizam o corpo hídrico como corredores de biodiversidade, os índios e até nós mesmos podemos estar sendo prejudicados, afinal, são vários municípios que utilizam a água do Rio das Cinzas”, lamentou.

O artista plástico Marcos Almeida relata que um grupo de aproximadamente 20 pessoas esteve no Vale da Pirambeira recentemente para ver as condições da poluição e, para eles, nada mudou, só piorou. “O cheiro está insuportável, a água é uma verdadeira podridão. A coloração da água é semelhante a um café. Fico triste porque nossa região é tão rica de belezas naturais e pouco exploradas. Nossa região poderia ser igual Tibagi, Prudentópolis, Sengés. Temos potencial para isso. O único local que tem investimento é Ribeirão Claro. Estamos nos organizando para mandar um vídeo para o Greenpeace e, se for o caso, até para a Organização das Nações Unidas (ONU). Não vamos nos calar até conseguir um resultado expressivo no local. Estamos vendo os desastres ambientais recentes, como em Brumadinho (MG), por exemplo, e precisamos fazer algo em prol da natureza”, desabafou.

PROJETO PARALIZADO – Em 2015, Tressoldi apresentou uma proposta ao Executivo e Legislativo de Joaquim Távora para criação de um Parque Ambiental no Vale da Pirambeira, mas o projeto não avançou. Segundo o prefeito Gelson Mansur, o Vale trata-se de uma propriedade privada, e explicou que o proprietário só doaria a parte para construção do parque mediante a aprovação de um loteamento no distrito industrial do município. Em reunião com parlamentares, eles optaram em não aprovar o loteamento para evitar problemas futuros típicos das áreas industriais. “Tínhamos também a opção de comprar a parte do proprietário, mas diante da crise financeira que estamos enfrentando, não estamos com recurso para efetuar a compra. Além disso, seria necessário um grande investimento para tornar o Vale um parque ecológico para a região. Teria que investir no acesso, inclusive para cadeirantes, manutenção, seguranças e monitores 24 horas. Ou seja, no momento é inviável tal investimento”, explicou Mansur.

Em nota, a assessoria de imprensa do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) disse que não há previsão para emissão do laudo técnico que atestará as condições da água no Vale.