Capoeira é usada como terapia para superar a depressão

Trabalho voluntário é realizado sem qualquer ajuda do Município e sem patrocínio

Projeto de Capoeira está a dois anos em funcionamento e beneficia 40 alunos de 4 a 35 anos Foto: Antônio de Picolli

Exemplo de superação, Diego Rodrigues de Almeida, 31, tem aos poucos mudado sua vida e de centenas de crianças de Carlópolis através de um trabalho voluntário com aulas de capoeira. Conhecido como “Instrutor Cismado” ele conta da sua luta contra a depressão e ao mesmo tempo a sua dedicação em fazer com que outras pessoas não passem pelas mesmas dificuldades.

 

Seu projeto, que está sendo aplicado há dois anos, beneficia 40 alunos de 4 a 35 anos. Cismado detalha que tudo que ele faz é por amor, sentimento que ele nunca teve de uma família e tenta transmitir para as crianças junto com a capoeira. Mas por outro lado, carece de políticas públicas para ajudar no seu projeto – que atualmente conta somente com doações da comunidade.

 

Para Almeida o melhor remédio para a depressão é uma mente ocupada, distraída. E a capoeira tem exercido um papel fundamental nesse sentido. Trazendo para ele e também para as crianças e adolescentes, mais qualidade de vida associada com o aprendizado, respeito ao próximo, humildade e atividade física. Instrutor Cismado faz reuniões mensais com os pais e cobra dos alunos bom desempenho na escola para que sigam no projeto.

 

As aulas de capoeira são ministradas na Escola Municipal José Salles (terças, quartas e quintas) e na Escola Estadual Hercília de Paula e Silva (aos domingos). Porém, o instrutor lamenta sobre a forma com que são tratados na Escola José Salles, pois, ele e os alunos não podem entrar pelo portão da frente, não podem usar os banheiros do estabelecimento de ensino e nem sequer beber água das torneiras. Almeida detalha que a prefeitura já ofereceu outros espaços para o uso do projeto social, mas devido à distância, fica inviável realizar o projeto sem ceder transporte.

 

Além disso, a diretoria da escola não permite que as rodas de capoeira sejam realizadas na quadra e, por isso, eles precisam se deslocar até a praça da cidade para conseguir finalizar as atividades. “Infelizmente a capoeira só é lembrada pela comunidade em novembro, durante a semana da consciência negra. Por isso, quero mostrar que o meu projeto voluntário vai muito além de uma roda de capoeira e se tornou em si uma roda de terapia. Atualmente tenho duas alunas com quadro depressivo e vejo semanalmente a evolução de cada uma, superação e força de vontade de vencer a doença”, comemorou.

 

HISTÓRIA DE VIDA – Nascido em Araraquara (SP), Diego Almeida foi deixado em uma casa de adoção. Sem saber o paradeiro de seus pais, ele foi adotado por uma família, mas sofria diariamente com maus tratos. Diante desse cenário desesperador, sua escolha foi fugir de casa e morar nas ruas. Durante anos ele fez da rua XV de Curitiba (região central) sua morada, trabalhando como engraxate.

 

Seu primeiro contato com a capoeira foi em 2009, e desde então já participou de várias competições oficiais. Porém, durante uma competição, Almeida foi atingido na cabeça e teve uma crise convulsiva. Após alguns exames no hospital, o jovem descobriu um tumor no cérebro de quatro centímetros e hoje carrega junto à sua história uma enorme cicatriz do lado direito da cabeça.

 

Em meio a tantos problemas, Almeida passou a ter crises de síndrome do pânico e depressão, e precisou fazer uso contínuo de remédios controlados. Ele, inclusive, foi internado durante quatro meses para tratamento por conta das crises e chegou ao ponto de tentar suicídio por três vezes.

SUPERAÇÃO – Diego Almeida conta que diante disso, sua única esperança para mudar de vida sempre foi a capoeira, e classifica seus alunos como a sua família. Ele já se sente preparado para novas competições e, inclusive, já foi um dos convidados pelo Mestre Valtinho – Valter Ricardo Thabet, de Jacarezinho, para prestigiar um evento regional de capoeira. “A sociedade tem ajudado muito para minha recuperação. Tudo que eu faço é pelo amor à capoeira.

 

As pessoas tem que entender que depressão não é frescura, que não é uma simples gripe que a gente medica e sara. A depressão é uma doença que vive dentro da gente e que aos poucos vai sufocando. Por isso, meu projeto de vida é dar aula para as crianças, distrair-las e tentar um futuro melhor”, detalhou o professor.

 

O OUTRO LADO – A equipe de reportagem entrou em contato com a secretária Municipal de Educação, Maria Aparecida Miranda, que disse desconhecer sobre o projeto social realizado nas escolas e que não poderia comentar sobre o assunto. Ela ainda orientou a equipe de reportagem a procurar pela diretora da Escola Municipal José Salles, Gláucia Keila Cabral, para explicar o motivo dessas proibições que limitam o projeto social voluntário, mas ela não foi localizada. Ninguém atendeu aos telefonemas na escola.